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Vida, morte e a empresa do Abílio.

Ricardo Alexandre Mendonça *

Abílio comandava uma empresa informal à beira mar.

Três vezes por semana chegava bem cedo ao trabalho com sua sunga de praia, vistoriava os equipamentos, organizava-os e recebia seus colaboradores. A empresa de Abílio não tinha funcionários e, os próprios clientes, eram os colaboradores. Era realmente uma empresa diferente!

Abílio adotou por conta própria um pequeno espaço na encosta da Praia do Diabo, ao lado da Praia do Arpoador, no Rio.

Aos 50 e poucos anos de idade e já aposentado por questões de saúde, investiu no que mais gostava: praia e malhação.

Com seus próprios recursos construiu halteres com canos de ferro e pesos variados de cimento. Pintou os suportes de madeira das barras, as pranchas abdominais, fez um quadro de recomendações e instalou uma "caixinha de coletas", na qual os frequentadores contribuiam para ajudar na manutenção do espaço e equipamentos. Eu particularmente contribui algumas vezes para manter os equipamentos. Devo dizer que o Abílio e nenhum dos colaboradores pretendeu alguma vez, transformar o afeto em negócio para ganhar dinheiro.

QUE ISTO SEJA MUITO CLARO!  Abílio e NENHUM dos colaboradores pretendeu alguma vez, transformar o afeto em negócio para ganhar dinheiro."

Abílio reconstruia os pesos quebrados e os canos enferrujados em decorrência da maresia. Por vezes reclamava de furtos noturnos dos equipamentos que ficavam expostos e disponíveis 24hs. Durante vários anos trabalhou muito para manter o espaço funcionando adequadamente. Com isso, e sem se dar conta, atraiu uma legião de frequentadores/colaboradores que malhavam juntos e se conheciam.

Além dos halteres, das pinturas e das restaurações dos canos enferrujados, Abílio também fez uma horta na enorme pedra que circunda a encosta da praia. Couve, rúcula, alfaces em especial, salsa, cebolinha, cenoura, etc. Naturalmente tudo sem agrotóxico, química ou venenos do gênero!


       Abílio Bergaminni com sua tradicional sunga e Ricardo Mendonça, de camiseta.

Abílio foi entrevistado inclusive por emissoras de TV de outros países e era comum ver turistas estrangeiros malhando em sua academia; tinha um dom para conversar com todos, auxiliar nos exercícios e cativar o afeto de seus "clientes". Além disso, era um bom gerente geral e muito comprometido com sua organização.

Abílio sofria de uma grave doença renal e após alguns anos de hemodiálise não teve mais forças para continuar. Talvez tenha  montado uma academia informal no céu em frente a Praia de Deus e  referenciando o Diabo como fonte de aprendizado, uma vez que ele fez parte de sua vida, ainda que no formato de praia.

Sua empresa ainda existe e os colaboradores continuam malhando lá diariamente.

Para conhecer o Abílio, sua horta, sua academia na praia e sua alma clique aqui

Fala-se que a prefeitura do Rio pretende auxiliar na manutenção do espaço. Torço para que Deus dê essa felicidade ao Abílio e a todos nós! Não é todo dia que vemos alguém com amor a profissão como o Abílio tem...

 

*Ricardo Alexandre Mendonça é consultor em Recursos Humanos, mestre em Psicologia PUC/RJ e especialista em Educação a Distância (EAD). Consultor do IVAR - Instituto do Varejo-RJ e consultor por 6 anos do IBQN na área da gestão da qualidade total. Formação como avaliador do Prêmio Qualidade/RIO . Escritor e palestrante. Realiza instrutoria e desenvolve projetos de treinamentos nas áreas gerencial e de gestão de negócios, tutor EAD do Sebrae Nacional e sócio diretor da Diferencial Educação & RH.