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O ALHO E O EMPREENDEDOR
Osmar Rezzende*



Em uma terça-feira, por volta dás dez horas, estava eu andando pelo centro da cidade do Rio de Janeiro, especificamente ali, no  Balança Mais Não Cai. Estava pensando: caramba! Tenho que escrever um artigo, mas o que escrever? Foi quando resolvi entrar em um dos quatro bares que ficam no local e pedir uma garrafa de água mineral. Neste momento, entrou um rapaz com uma bolsa de viagem nos ombros, cabelos rastafari, vestido de bermuda, tênis e camisa de malha. Na sua mão havia seis saquinhos de alho. Eu já havia visto esta cena várias vezes, mas nunca parei para analisar este tipo de trabalho.

      Quem não conhece o rapaz e nunca o viu trabalhando, jamais vai imaginar que tratar-se de um vendedor. Ele entrou no bar me cumprimentou, cumprimentou outras pessoas que estavam no balcão e pediu para falar com o gerente, o balconista apontou para a outra extremidade do balcão e lá se foi o vendedor de alho. Mas o que mais me chamou a atenção foi a sua alegria, em momento algum desde que entrou no bar ele deixou de sorrir e o melhor, era um sorriso espontâneo como de uma criança. Eu fiquei ali observando e esperando para ver o final daquela negociação, fiquei feliz ao perceber que o gerente também passou a sorrir, eles conversaram por cerca de cinco minutos e o vendedor vendeu três saquinhos de alho. Quando estava saindo do bar ainda nos ofereceu e acabou vendendo mais dois saquinhos para um casal que estava fazendo um lanche, saindo dali, se dirigiu ao bar do lado.

      Percebendo o seu trajeto, peguei minha água e fui para o último bar e  fiquei de lá espreitando. Pois bem, ele entrou em todos os bares e vendeu em todos eles. Eu o convidei para tomar um café e entabulamos uma rápida conversa, onde ele me disse que tem como meta vender sessenta saquinhos de alho por dia, todos os dias, chova ou faça sol. Trabalha oito horas por dia e sai de casa com setenta saquinhos. Eu lhe perguntei: se a sua meta é vender sessenta saquinhos  porque você sai de casa com setenta? E ele me respondeu, por dois motivos.

1º- Se cumprir sua  meta antes de completar 8 horas de trabalho, ele tem mais dez saquinhos para tentar cumprir sua carga horária.

2º- Ele começa a trabalhar às 9:00 horas e termina às 17: horas, que é o horário do rush, e o trânsito está terrível por causa dos engarrafamentos, por isso, para fugir dos engarrafamentos ele faz hora extra todos os dias.

      Quando  eu falei sobre o peso dos alhos, ele me disse sorrindo: tem razão, saio de casa com a bolsa pesada mas quando volto, o peso está no bolso. Este rapaz tem apenas dezenove anos e começou a vender alhos contra a vontade dos pais, que queriam que ele trabalhasse como servente em uma empresa de limpeza, onde trabalha seu irmão mais velho, que segundo seus pais, tem a segurança da carteira assinada e do salário fixo no final do mês. Segundo ele, agora depois de dois anos vendendo alho nos bares e de ter reformado seu quarto e comprado um carro, seus pais pararam de reclamar e aceitam seu trabalho.

       Eis aí um empreendedor e vendedor nato. É um jovem que sabe o que quer e que não se deixa influenciar, mas acima de tudo trabalha motivado, com alegria e com aquele brilho no olhar, que nos faz perceber que vender é tão simples, como dar um sorriso. Apesar de existirem pessoas que teimam em tentar complicar.

* Osmar atua na área de vendas desde de 1982, desenvolvendo negócios próprios tais como: Vendas externas de cama mesa e banho, filtros, bolsas, móveis e estofados, óculos, feiras de cultura entre outros. Desenvolveu uma série de projetos para o SEBRAE, Cândido Mendes, Bolsa mercantil de Futuros, etc. Professor de Lei de Incentivos Fiscais no Instituto Cidade Viva nas esferas municipal, estadual e federal. Atualmente trabalha com venda de livros e brinquedos pedagógicos e está montando um sebo virtual.