Em pleno carnaval e ia começar a escrever sobre plano de negócios na noite de sábado. Muita gente deve pensar: este cara é maluco, onde já se viu pretender ter atividade intelectual em pleno sábado à noite de carnaval ? Na verdade nunca tive esta pretensão mas as circunstâncias me levaram. Meu pai chegou de uma internação de 30 dias numa clínica naturalista no Paraná, onde no período fez diversos tratamentos à base de frutas, argila, respiração, banhos variados, etc. Ele viajou com a finalidade de tentar melhorar sua saúde debilitada por um câncer de pulmão e cinco cirurgias anteriores. Corajoso e determinado como sempre, fez sua reserva, despediu-se da família, pegou o avião e “se mandou”. Falávamos com ele diariamente e recebíamos as notícias dos tratamentos diferentes que estava recebendo. Um mês depois a volta e planos para o carnaval na casa da serra, onde além de estar com muitas saudades, queria ver o final dos pequenos consertos que ficaram pendentes no período, após um ano acompanhando quase semanalmente as obras. Na véspera da viagem arrumei minha pequena bagagem que incluia um PC portátil para uma inesperada inspiração após exercícios e cachoeiras de manhã, piscina, descansos vespertinos e outras atividades. Uma amiga ficou de ir e me senti mais alegre por ter companhia para tudo isto e os chopps da noite, assistindo o desfile das pequenas escolas locais. Meus pais foram na sexta de manhã de carro e eu fui à tarde de ônibus pois estava ministrando um treinamento até meio dia. Devo dizer que até uns três dias após fazer a quimioterapia, meu pai dirige normalmente, trabalha e cuida de suas atividades cotidianas. Cheguei na sexta à tarde, desliguei minha mente de trabalho e compromissos e fui direto dar um mergulho na piscina onde passei quase uma hora tomando sol, pulando e nadando; parecia criança feliz da vida com as férias. À noite começaram os primeiros sinais do efeito da quimioterapia e meu pai mal conseguia andar de tanto cansaço. Minha mãe como sempre muito preocupada, procurava agradá-lo de todas as formas e tentava em vão, também como sempre, libertar-se da angústia e somatizações que apareciam intensamente nestes momentos. Eu tenho um temperamento diferente do dela e outros mecanismos para lidar com a angústia; além disso estava acostumado há quase dois anos com o que via dos efeitos do tratamento quase todas as semanas quando ia (e ainda vou com muita freqüência), à casa deles. Tive certeza neste momento que minhas noites de carnaval seriam em casa ou, no máximo, ir a um bar próximo com minha amiga tomar um chopp, uma vez que para voltar do centro da cidade onde ocorre a bagunça, seria impossível, devido ao movimento de carros, pessoas e desfiles. Acabei de pensar isto e minha amiga ligou dizendo que não viria por razões pessoais e familiares também. Nesta mesma noite consegui escrever um artigo, “Comida e Trabalho” e pensei em escrever sobre plano de negócios na noite seguinte. O dia passou com muitas atividades físicas, a noite chegou, joguei baralho com minha mãe, tomei uma dose de whisky , vi televisão e fui escrever sobre plano de negócios. Lembrei-me porém que quando meu pai voltou e tirou radiografia do pulmão o nódulo tinha aumentado. Assim sendo sua quimioterapia passaria a ser semanal, seu estado de espíito normalmente muito bom ficou péssimo e minha inspiração foi para o beleléu. Tenho certeza que houve má gestão neste processo da viagem em algum momento mas isto foge ao tema do artigo. Minha intenção era a de escrever sobre plano de negócios numa linguagem muito simples e despojada, como já fiz para um material elaborado num convênio há alguns anos. O tratamento do material é bem simples, sem rebuscamentos desnecessários para quem está começando, sem “palavras difíceis” e que fosse um instrumento de fácil compreensão, aplicação, monitoramento e acompanhamento dos resultados. Em outras palavras, serve tanto para o menino que pretende vender “gibis” na rua até o proprietário de um pequeno negócio que não tenha um fluxo de caixa com maiores detalhes e pretende ficar na informalidade. De qualquer maneira sempre foco os comportamentos empreendedores em vários artigos e aqui, neste carnaval, estou vivenciando a “busca de oportunidades”, “comprometimento” e “iniciativa”, embora os vivenciando em decorrência de algo nem de longe planejado e, sim, em decorrência das circunstâncias familiares apresentadas. “Iniciativa” de aproveitar a situação e correr estes quatro dias pela manhã no Parque Nacional da Serra dos Órgãos, tomar banho de cachoeira e fazer minhas meditações e respirações sozinho na mata.. “Busca de oportunidades” decorrente de muitas horas livre e sozinho, para transformar a angústa em palavras, em letras pelo menos para mim sempre importantes, especialmente neste momento. “Comprometimento” por saber que os “velhos” precisariam muito de alguém para tirar e colocar o carro na garagem, companhia para conversas e jogos de baralho, carregar coisas pela casa e pelo quintal, alguém para contar uma piada e tornar o clima mais leve e, principalmente, por tentar ainda que minimamente, reconhecer e dar de volta o suporte em todos os sentidos que sempre me deram a vida toda. Acho que agora tirei algumas nuvens da cabeça e do coração, o artigo do plano de negócios sairá com mais facilidade ainda neste carnaval. *Ricardo Alexandre Mendonça é consultor em Recursos Humanos, mestre em Psicologia PUC/RJ e especialista em Educação a Distância (EAD). Consultor do IVAR - Instituto do Varejo-RJ e consultor por 6 anos do IBQN na área da gestão da qualidade total. Formação como avaliador do PQ/RIO 99. Escritor e palestrante. Realiza instrutoria e desenvolve projetos de treinamentos nas áreas gerencial e de gestão de negócios, tutor EAD do Sebrae Nacional e sócio diretor da Diferencial Educação & RH. |