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Silvia Rocha*
CONVIVENCIALIDADE NAS EMPRESAS


A primeira vista, o termo convivência, pode provocar uma sensação de conforto descomprometido, ligado a uma idéia de "não estar trabalhando". Pois quando se está trabalhando, cada um está envolvido em suas tarefas, compenetrados nas suas produções, agendas e prazos. O stress é quase sinônimo. Se eu não estou estressado, como posso estar trabalhando? "Agora é hora de relaxar." – diz-se após o expediente. Trabalho tem sido igual a dor, a sofrimento, a desconforto – no mínimo a uma tensão. A convivência seria, algo externo ao trabalho, num churrasco no fim de semana, ou um chopp depois do expediente. Convivência seria sinônimo de futebol, bate-papo informal, social, piadas e descontração. Horário de trabalho é coisa séria e convivência entre as pessoas no trabalho é anti profissionalismo.

E é nesta mentalidade de separação que temos vivido até então, esquizofrenizando nosso ser. Conduzindo cada tipo de performance nos lugares onde estas são esperadas e bem aceitas. O riso com chopp e a seriedade no trabalho. E se eu levar a descontração para o local de trabalho? É pura irresponsabilidade, falta de competência. "Como vocês ficam fazendo integração de grupo, se conhecendo melhor, se temos prazos para cumprir?" É uma frase típica de quem banaliza a humanidade, desejando robôs que cumpram tarefas, colocando de lado as necessidades e desejos pessoais e sem tirar partido do poder de sinergia que um relacionamento pode ter. Primeiro a produção e por último, se houver espaço, o humano.

Como esclarece De Masi, isto é fruto da sociedade industrial que nasce com o Iluminismo, um grande movimento a favor da racionalidade e contra a emotividade. Até o Iluminismo, dominávamos apenas a esfera emotiva e as explicações míticas-religiosas dos fenômenos naturais. O Iluminismo vem substituir as explicações emotivas pelas racionais. Mas as indústrias que nascem exatamente naquele momento interpretam o Iluminismo de forma tendenciosa. Como o Iluminismo, a indústria afirma que tudo que é bom é racional. Mas acrescenta que tudo que é racional é masculino, tudo que é masculino diz respeito à produção e tudo que diz respeito à produção é realizado na fábrica. Por outro lado, tudo que é negativo é emotivo, tudo que é emotivo é feminino, tudo que é feminino diz respeito à reprodução e tudo que diz respeito à reprodução é realizado dentro de casa.

Fomos de um pólo a outro, e enrijecemos nas extremidades em momentos diferenciados da nossa evolução. Será um desafio para nós, encontrarmos o "caminho do meio" entre os dois pólos, uma atitude totalmente nova perante o que estamos acostumados a viver. E esta mudança é urgente.

Esta cisão que temos vivido, não só tem nos causado, na pior das hipóteses, danos físicos, emocionais e sociais, quanto também, na menos ruim, limitado o potencial criativo vasto existente em cada ser humano. A solidão impera nos serviços e as trocas humanas tão ricas, somente é permitida no social à parte, disperdiçadas pela falta de atenção a elas. É a Era da Instrumentalização onde o Ser é simplesmente instrumento utilitário para um único fim: Lucro e produção.

Ao contrário do que temos testemunhado no decorrer de nossas vidas, o ser humano é uma unidade formada de corpo, mente, alma, emoções interligados. Temos dois hemisférios cerebrais – o esquerdo ligado a razão, objetividade, masculino; e o direito, ligado à subjetividade, emoção, ao feminino. A forma de pensar o trabalho, tem sido através do esquerdo, a primazia da razão, a ênfase no masculino, no yang, na competição. Convidar o hemisfério direito à se integrar no processo da vida, e também no trabalho, é humanizar , é se emocionar, feminilizar. As qualidades femininas de receptividade, passividade, pacificidade, cooperação e meditação já entoadas pelos orientais e desqualificadas pelo ocidental, precisam ser resgatadas para compor a integração. O trabalho integrado dos dois hemisférios leva a um melhor aproveitamento de um potencial que é vasto e até mesmo desconhecido.

Convivência é sim, sinônimo de conforto, pois é a possibilidade de nos sentir bem de sermos humanos. De errar e vacilar e aprender. De cair e levantar. De sentir sem culpa, de ter a intenção de estar sempre crescendo. Ser pleno na imperfeição e limitação humanas. É permitir ser gente no trabalho e não máquina de produção. Isto vai exigir mudança de valores, ressignificação de crenças e em muitos casos, reformulação de identidade. Quem está disposto a este mergulho de transformação?

Segundo De Masi, os valores da sociedade pós-industrial são a intelectualização, a desespecialização, a feminilização, a desestruturação do tempo e do espaço, a importância crescente dada à qualidade do produto e à qualidade de vida. Enfim, pede uma organização empresarial totalmente diferente do que temos hoje. Pede um Ser Humano mais estruturado em si mesmo. Mais de acordo com sua natureza, inteiro e vivo.

Nos tempos atuais, podemos dizer que a guerra é um resultado de excesso de materialidade, masculino, yang. A Convivencialidade agora, não é mais uma questão somente de desejar mais qualidade de vida, é uma questão de necessidade de sobrevivência. De feminilizar o planeta.

Ser convivencial porém, é mais do que uma atitude, é uma postura diante da vida. É um pensamento, um sentimento e uma ação, numa tentativa de continuarmos inteiros onde quer que estejamos. É trabalhar sobre si mesmo, em busca da integração, da saúde, do prazer e do amor. Um compromisso com a vida. Será que estamos preparados?

*Sílvia Rocha é psicóloga, Gestalt-terapeuta e Master Pratictioner em Programação Neurolingüística. Consultora de empresas, realizando cursos de "Criatividade e Modelos Mentais", " Aprendizagem em Equipe", "Projeto SER" (reaprendizagem emocional através da arteterapia para organizações), "Negociação de Conflitos", "Relacionamento Interpessoal". Realiza consultoria para diversas empresas e prefeituras. Colunista do Jornal Qualittá e membro da R.E.D.E. - Rede para a Educação, o Dom e a Expressão. É co-autora do livro: "Convivencialidade - A Expressão da Vida nas Empresas". Possui cursos de extensão em Análise Transacional, Hipnose, Dinâmica e Processo Grupal, Xamanismo e é instrutora do Sistema Rio Abierto - Buenos Aires e Rio de Janeiro.