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A CULTURA DO APEGO


Sueldo Câmara*


                                     Recentemente, recebi de um amigo um dvd sobre uma viagem de quatro profissionais a Índia (Um professor de Yoga, uma fotógrafa, um Diretor de fotografia e um roteirista ) O Objetivo: Conhecer a cultura, a religião, os hábitos e ensinamentos do povo indiano, e principalmente se aprofundar na filosofia do yoga. Segundo esses estudiosos, para que esse objetivo seja plenamente alcançado, a primeira regra é evitar qualquer tipo de comparação com a cultura ocidental, evitar o juízo de valor sobre o que é certo e o que é errado em uma cultura ou em outra. O importante é vivenciar, testemunhar, compreender, participar e extrair todo e qualquer ensinamento que se possa absorver e adaptar a nossa realidade. No entanto, é quase impossível não observar determinadas características de um povo que comumente não encontramos com tanta facilidade em outro, desde que se respeitem às diferenças naturais de contextos, histórias e realidades opostas em alguns aspectos e semelhantes em outros.

                                     A Índia, assim como o Brasil, é considerado um país emergente, ou seja, países que vislumbram crescimento econômico constante e uma melhora significativa em seus índices de desenvolvimento humano em um futuro não muito distante, porém, os dois países ainda convivem com grandes diferenças sociais entre os seus habitantes e com o desafio de retirar da pobreza parte considerável da sua população. Evidentemente, no aspecto religioso, as diferenças são consideráveis, Na índia, prevalece o hinduísmo, no Brasil, o cristianismo. Mas, a finalidade desse artigo não é analisar semelhanças e diferenças no campo sócio-econômico e religioso dos dois países, mas somente destacar como o povo indiano, com tantas carências materiais e uma certa desorganização social (como por exemplo, trânsito caótico e alta densidade demográfica) conseguem cultuar a paciência, a alegria, a cordialidade e espiritualidade. Como o padrão de felicidade se modifica dependendo da cultura e dos valores que se estabelece entre uma sociedade e outra. No ocidente, vinculamos a nossa felicidade e o nosso bem estar espiritual a posses, status, conquistas. Acreditamos na acumulação de bens materiais e ocupação de posições sociais privilegiadas como condição sine qua non  para a nossa realização pessoal e felicidade, nos preocupamos pouco com contemplação, meditação, espiritualidade, auto-conhecimento, equilíbrio-corpo-mente-espírito, (a não ser quando desejamos conseguir estética e beleza corporal)  estamos mais atentos ao TER e “PARECER” do que ao SER e CONVIVER.    

                                  Longe de mim querer desconsiderar a necessidade de conquistas materiais para o bem estar do individuo, não se está discutindo a importância de condições materiais para se viver com dignidade, nem tampouco  me excluir do enquadramento nos padrões ocidentais de felicidade, ou me apresentar como “guru de auto-ajuda” a minha intenção é expor a observância sobre os efeitos da “cultura do apego”. 
                      Conheço muitas pessoas, (alunos, colegas, amigos, clientes, ou somente conhecidos) que pela posição social que ocupam, estão enquadrados dentro do padrão ocidental de felicidade, são pessoas consideradas bem-sucedidas, possuem “isso ou aquilo” representam “isso ou aquilo outro” no entanto, quando conversamos um pouco mais, percebe-se os desconfortos emocionais da pessoa, angústias e descontentamentos se apresentam, carências e sofrimentos emergem da tênue e aparente felicidade. Mas Por quê? O que há de errado na busca por tudo que a mídia, os modismos ou a maioria das pessoas dizem ser necessário a nossa plena realização? Simplesmente porque nos obriga a associar o nosso bem estar às exterioridades (posses, posições, prazeres, padrões, conquistas, etc.) o demasiado apego nos leva ao medo da perda do que ilusoriamente nos pertence -gerando insegurança e inquietude - ou a correria frenética em busca de mais, para descartar qualquer risco de não possuir no futuro. Na verdade, o nosso cargo, posição, condição financeira ou a pessoa que pensamos possuir, por um motivo ou outro, pode, de uma hora para outra, “escorregar entre os nossos dedos” e quanto mais associamos nossa felicidade somente às exterioridades, mais vulneráveis nos tornamos aos pensamentos e sentimentos negativos, mais fragilizados e dependentes nos tornamos, porque consideramos a felicidade restrita a algo externo (geralmente passageiro ).

                         Alguém pode perguntar? Não será também ilusão ou até mesmo muita pretensão acreditar que somente o desenvolvimento interior e pessoal do indivíduo é suficiente para alcançar a plenitude? Sinceramente, não tenho a resposta para essa pergunta, acredito que depende muito das crenças, cultura e valores de um povo, obviamente, pelas regras sociais do ocidente,  que  seguimos e nos influencia – até para sermos aceitos e valorizados – isso pode parecer impossível. No entanto, a cultura do apego também é nociva a nossa felicidade plena. Talvez, a instauração de uma  “cultura do equilíbrio” onde a busca pelas exterioridades também permita o culto ao auto-conhecimento, a espiritualidade, a compaixão e ao desapego, seja um dos caminhos para uma vida de paz e harmonia pessoal.

* SUELDO CÂMARA é Diretor da EDUCAR – Consultoria e Treinamento Empresarial   e Prof. da UERN.