“Decepção
não mata, ensina a viver.”
(Provérbio)
Infância alegre e feliz à lembrança remete de
brincadeiras que caíram em desuso. Jogos que não podiam
ser individuais, mas apenas coletivos, e que por conta disso já
nos ensinavam a magia do fazer em grupos, do construir equipes, do
formar times.
Peripécias cultivadas com mãos arteiras e pés
descalços; bolas, piões, pipas e bonecas; joelhos
esfolados, galos na cabeça; frutas na copa das árvores,
plantar bananeira. Tudo interrompido apenas pelo compromisso da
lição de casa, ou “o dever”. Ditado e tabuada, nomes de
rios e de presidentes. Feito isso, podia-se aproveitar mais um pouco do
luar que iluminava as ruas e da brisa que as varria.
Anos depois, adolescência plena, os ditados viraram
redação, e as tabuadas, equações. A
educação apropriou-se do expediente dos “trabalhos” como
metodologia. Construir instrumentos musicais com materiais
descartáveis, elaborar um informativo a partir de
notícias recortadas de jornais e revistas. Tarefas prazerosas,
respectivamente, para aqueles dotados de talento artístico e
editorial. Tarefas desgostosas para os mesmos, em papéis
inversos, quando não as apreciavam.
Um salto no tempo e a memória vislumbra noites que
avançam madrugadas adentro, livros no colo, refrigerante de cola
no copo, olhos cansados, temas diversos sendo estudados para
avaliações rotineiras chamadas “provas”, como quem
denuncia que devemos comprovar que entendemos, que decoramos, mas
não necessariamente que aprendemos.
Ensino médio que vai, vestibular que passa, faculdade que chega.
Os ditados, que outrora se transformaram em redações,
agora evoluem para teses e monografias. As tabuadas, antes promovidas a
equações, ganham o status de cálculos diferenciais
e integrais.
Na infância, você questiona o porquê de memorizar os
nomes dos rios. Mas, tudo bem, aceita fazê-lo para granjear uma
boa nota e, por conseguinte, o sorriso estampado no rosto de seus pais.
Na adolescência, você se pergunta os motivos pelos quais
deve estudar química se pretende ser um historiador; biologia,
quando deseja ser engenheiro. Mas, tudo bem, supera mediocremente as
aulas e avaliações, afinal, na faculdade estará
isento deste “destempero”.
No ensino superior, custa-lhe aceitar que cálculos
estatísticos tenham que ser conduzidos a partir de
fórmulas matemáticas quando o computador está
à disposição para apontar o resultado em uma
fração de segundos. Mas, tudo bem, você aceita mais
esta, tudo porque está desde sua mais tenra idade em busca do
desejado pergaminho: o diploma.
Na trajetória pela conquista do canudo, documento com a
capacidade singular de anunciar ao mundo as qualidades e
competências pretensamente adquiridas, tal qual divisas que
ilustram uniformes de oficiais, desperdiçamos o prazer do
estudo, o sabor do aprendizado. Com olhos fixos na almejada copa da
árvore, a mesma onde colhíamos jabuticabas, e mangas, e
goiabas, e onde o poder agora parece nos aguardar, esquecemos da
amplidão da floresta, perdemos a magia da diversidade.
Diploma em punho, vem a decepção de que ele nada garante,
seja a percepção de conhecimento, seja a segurança
de um emprego. A descoberta maior é de que ele é
insuficiente. E, agora, talvez até indesejável, porque
embotou sonhos e talentos do passado. Frustração com
gosto de traição.
As portas foram apenas destrancadas, mas devem ser abertas por dentro
de cada um de nós. Se você puder resgatar sonhos e
talentos, não apenas na memória, mas também na
ação, poderá refletir: “Vivi. E aprendi a viver”.
PS: Este artigo é dedicado ao meu amigo João Padilha, um
jovem com 72 anos completos que iniciou recentemente um curso de
especialização pela Internet. João sempre escreve
para comentar os textos relatando em tópicos “o que aprendeu” a
partir de cada um deles. Esquece-se de relacionar o que ensina.
Disse-me em sua última mensagem: “Enquanto em mim repousar o
suspiro de vida, tudo o que posso executar para vencer o medo,
não hesitarei em fazê-lo”.
* Tom Coelho, com formação em
Economia pela FEA/USP, Publicidade pela ESPM/SP,
especialização em Marketing pela MMS/SP e em Qualidade de
Vida no Trabalho pela FIA-FEA/USP, é empresário,
consultor, professor universitário, escritor e palestrante.
Diretor da Infinity Consulting e Diretor Estadual do NJE/Ciesp.
Contatos através do e-mail tomcoelho@tomcoelho.com.br. Visite:
www.tomcoelho.com.br
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