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A ÉTICA COLETIVA E O JEITINHO BRASILEIRO
Luiz Roberto Bodstein*


Ricardo Semler, homem de negócios bem sucedido, em seu best-seller "Virando a Própria Mesa", alega que é impossível ser industrial neste país sem ser corrupto, tantos e tamanhos são os esquemas que envolvem a atividade e dentro dos quais não resta alternativa senão fazer parte deles ou perecer.

De certa forma, embora a exorbitante carga tributária a que estão submetidas as empresas brasileiras não deixa dúvidas do quanto a afirmativa se aproxima da realidade, é fato também que todo o restante da sociedade utiliza esta mesma lógica para justificar suas ações despidas de qualquer sentido de ética. E isto se generalizou de tal forma que não podemos mais falar sequer de ações pontuais, mas de uma cultura que se instalou e passou a fazer parte do cotidiano das pessoas que sequer conseguem fazer a distinção entre certo e errado, entre ético e não ético no convívio social.

A corrupção é mera conseqüência deste padrão moral no qual somos iniciados deste a mais tenra idade. A desonestidade, o engano e a falta de caráter é algo intrínseco e altamente difundido na maioria das atividades que se desenvolve neste país. Daí porque me posiciono como um ferrenho combatente do tal "jeitinho brasileiro".

Se fizermos uma pesquisa nas ruas, é bem provável que muitos dirão que são da mesma opinião mas, na prática do dia-a-dia, as mesmas pessoas que fazem tal afirmativa cometem atos que vão desde conseguir um lugar na frente de uma fila ou calar-se ao receber um beneficio indevido da previdência, até se manter na folha de pagamento de empresa pública na qual nunca desenvolveu qualquer atividade. E todos se acham plenamente justificados na crença de que "estou pegando de volta um pouco do muito que o governo me tira!". Não resta dúvida de que este tipo de pensamento aplaca muitas consciências a partir do momento em que reconhecemos que o governo fica longe de cumprir com a sua parte. Só que isso não se pode constituir em fator decisivo para a perda generalizada de referenciais e de renúncia absoluta ao sentido de valores pelas pessoas. Vou mais longe quando se trata de avaliar essa prática quando utilizada com conotação de malandragem. Se ainda existe a vontade de enganar, a real intenção de ser malandro, ainda há esperança de que o processo seja revertido, pois SABE-SE que se está cometendo ilícito, tem-se o conhecimento de que se está utilizando um recurso desleal ou desonesto. O mais grave – e é o que já está amplamente difundido na cultura deste país – é quando se perde a noção de que tais atitudes se constituem em ação desonesta.

Eu tenho muito mais medo do indivíduo AÉTICO do que do antiético, porque este último tem consciência plena de que está cometendo um ato ilícito, e isso faz o divisor de águas. Quando se perde a noção entre o lícito e o ilícito, como acontece no Brasil, e a população acha muito comum cometer o pequeno "delito nosso de cada dia", aí sim, tem-se o maior indicador de que a moral pública sofreu uma derrocada significativa, e não se sabe mais se isso poderá ser revertido um dia. A situação pode nunca mudar porque simplesmente ninguém acha que está fazendo nada errado. O contexto está degenerado de tal forma, com seu esquema de valores tão deturpado, que tudo passa a ser válido, desde que o final seja considerado "uma boa causa".

Li certa vez um artigo que classifica a corrupção em vários níveis, e mostra que ela já começa dentro de casa, quando se usa até a carteira de estudante de um irmão para pagar "meia" no cinema. E o comportamento tolerante, a complacência usual das pessoas com a corrupção do cotidiano é que se configura inaceitável, e faz a gente "entender" (ênfase nas aspas) a atitude daquele cidadão mostrado no filme "Um dia de fúria", de alguns anos atrás, que sai com uma arma pelas ruas metralhando pessoas que, ao longo de sucessivas situações na seqüência, não respeitam a sua condição de cidadão, atropelando os direitos alheios como se o desrespeito ao outro fosse uma coisa absolutamente natural.

Quanto ao Ricardo Semler, antes mesmo do seu livro virar "best seller" eu já havia sentido a sua afirmativa na minha própria carne. Quando há alguns anos tive minha empresa eu e meus dois sócios tínhamos uma folha de pagamento considerável, pois envolvia um contingente de 33 pessoas. A inflação comia solta (nos 3 anos finais da década de 80). Eu era o diretor financeiro, e determinei que nossos funcionários recebessem seus salários corrigidos mensalmente pelo dólar, para que eles não tivessem nenhuma perda, e jamais admiti a existência de "caixa dois".

Nossos contadores me alertaram, lembro-me como se fosse hoje, com estas precisas palavras: "Amigo, quem paga todos os tributos conforme manda a lei e não tem caixa dois não sobrevive neste país! Vocês fecham!" E essas palavras, que em qualquer outro país poderiam ter caráter "profético", aqui não passam de lógica matemática de fácil comprovação pela simples ação do tempo.

Meu idealismo se mostrou absolutamente fantasioso e utópico por não admitir me incluir na rede de corrupção oficialmente constituída e ratificada pelo poder público (a Receita Federal cobra um percentual altíssimo por partir do princípio que TODO MUNDO sonega e possa desta forma reduzir o prejuízo), pois acreditei que conosco seria diferente. "As outras empresas deveriam cometer deslizes" - pensei -, "pois quem sempre age corretamente, invariavelmente terá defesas e será poupado!" Fatídica ingenuidade: dois anos depois não só tivemos que fechar as portas como ainda respondemos por pelo menos a 3 ou 4 processos trabalhistas de empregados demitidos (por absoluta necessidade) reclamando vantagens!

Lembro-me que quando os contadores disseram que o tratamento de primeiro mundo que dávamos aos empregados jamais seria reconhecido por eles e que, se a situação mudasse, agiriam como todos os outros, eu respondi que "pessoas tratadas com respeito não retribuem com indignidade". Me enganei de novo. Mas uma vez os meus contadores estavam certos! A coisa teve passagens muito dolorosas, como o caso do meu assessor direto, a quem eu dera "status" de confiança total e amizade. Ele manipulava todo o dinheiro da empresa, usava o meu carro à hora que precisava e tinha acesso a todas as decisões da diretoria (era quem mais conhecia a nossa real situação!). Fiquei estupefato com a intimação para comparecer a juízo e liguei para conhecer o motivo, já que ele reivindicava horas extras, quando no trabalho não tinha sequer horário fixo: ele decidia a hora de chegar e a de sair. Quando eu lhe disse: "Cara, você teve sempre todo o nosso respeito e consideração", a resposta que ouvi pelo telefone fez desabar em mim grande parte da crença que eu alimentava no ser humano. Apenas me respondeu: "Belas palavras!". E, acreditem: era o assessor FINANCEIRO!

O país do "jeitinho" é a mais verdadeira das nossas realidades! Quem duvidar disso descobrirá quando já for muito tarde, como eu descobri! Afinal, o negócio é levar vantagem em tudo, certo? Enquanto não nos cobrarmos, cada um de si mesmo, – até que isso se torne uma prática comum – uma postura ética de tolerância zero, nada vai mudar.

*Luiz Roberto Bodstein - Consultor de Organizações, Bacharel em Direito e pós-graduado em Docência do Ensino Superior, especialista em Sistemas de Gestão pela Qualidade pela Penn State University - Pensilvânia, e em Planejamento Estratégico pelo Human Resources Institute, de Londres. Professor da FUNDAÇÃO GETÚLIO VARGAS para cursos de Administração de Empresas, Consultor da Join Consult Desenvolvimento Empresarial para o IBQN-Instituto Brasileiro de Qualidade Nuclear e SEBRAE.