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A ÉTICA COLETIVA E O JEITINHO
BRASILEIRO
Luiz
Roberto Bodstein*
De certa forma,
embora a exorbitante carga tributária a que estão
submetidas as empresas brasileiras não deixa dúvidas do
quanto a afirmativa se aproxima da realidade, é fato
também que todo o restante da sociedade utiliza esta mesma
lógica para justificar suas ações despidas de
qualquer sentido de ética. E isto se generalizou de tal forma
que não podemos mais falar sequer de ações
pontuais, mas de uma cultura que se instalou e passou a fazer parte do
cotidiano das pessoas que sequer conseguem fazer a
distinção entre certo e errado, entre ético e
não ético no convívio social. Eu tenho muito
mais medo do indivíduo AÉTICO do que do antiético,
porque este último tem consciência plena de que
está cometendo um ato ilícito, e isso faz o divisor de
águas. Quando se perde a noção entre o
lícito e o ilícito, como acontece no Brasil, e a
população acha muito comum cometer o pequeno "delito
nosso de cada dia", aí sim, tem-se o maior indicador de que a
moral pública sofreu uma derrocada significativa, e não
se sabe mais se isso poderá ser revertido um dia. A
situação pode nunca mudar porque simplesmente
ninguém acha que está fazendo nada errado. O contexto
está degenerado de tal forma, com seu esquema de valores
tão deturpado, que tudo passa a ser válido, desde que o
final seja considerado "uma boa causa". Li certa vez um
artigo que classifica a corrupção em vários
níveis, e mostra que ela já começa dentro de casa,
quando se usa até a carteira de estudante de um irmão
para pagar "meia" no cinema. E o comportamento tolerante, a
complacência usual das pessoas com a corrupção do
cotidiano é que se configura inaceitável, e faz a gente
"entender" (ênfase nas aspas) a atitude daquele cidadão
mostrado no filme "Um dia de fúria", de alguns anos
atrás, que sai com uma arma pelas ruas metralhando pessoas que,
ao longo de sucessivas situações na seqüência,
não respeitam a sua condição de cidadão,
atropelando os direitos alheios como se o desrespeito ao outro fosse
uma coisa absolutamente natural. Meu idealismo se
mostrou absolutamente fantasioso e utópico por não
admitir me incluir na rede de corrupção oficialmente
constituída e ratificada pelo poder público (a Receita
Federal cobra um percentual altíssimo por partir do
princípio que TODO MUNDO sonega e possa desta forma reduzir o
prejuízo), pois acreditei que conosco seria diferente. "As
outras empresas deveriam cometer deslizes" - pensei -, "pois quem
sempre age corretamente, invariavelmente terá defesas e
será poupado!" Fatídica ingenuidade: dois anos depois
não só tivemos que fechar as portas como ainda
respondemos por pelo menos a 3 ou 4 processos trabalhistas de
empregados demitidos (por absoluta necessidade) reclamando vantagens! Lembro-me que
quando os contadores disseram que o tratamento de primeiro mundo que
dávamos aos empregados jamais seria reconhecido por eles e que,
se a situação mudasse, agiriam como todos os outros, eu
respondi que "pessoas tratadas com respeito não retribuem com
indignidade". Me enganei de novo. Mas uma vez os meus contadores
estavam certos! A coisa teve passagens muito dolorosas, como o caso do
meu assessor direto, a quem eu dera "status" de confiança total
e amizade. Ele manipulava todo o dinheiro da empresa, usava o meu carro
à hora que precisava e tinha acesso a todas as decisões
da diretoria (era quem mais conhecia a nossa real
situação!). Fiquei estupefato com a
intimação para comparecer a juízo e liguei para
conhecer o motivo, já que ele reivindicava horas extras, quando
no trabalho não tinha sequer horário fixo: ele decidia a
hora de chegar e a de sair. Quando eu lhe disse: "Cara, você teve
sempre todo o nosso respeito e consideração", a resposta
que ouvi pelo telefone fez desabar em mim grande parte da crença
que eu alimentava no ser humano. Apenas me respondeu: "Belas
palavras!". E, acreditem: era o assessor FINANCEIRO! |