Ricardo Alexandre Mendonça *
    
  

  OH, meu funcionário é maconheiro !




 
Uma conhecida, gerente de recursos humanos de média empresa, comentou numa conversa informal que não sabia o que fazer, pois ao ir numa festa de aniversário encontrou um  funcionário da equipe fumando maconha. Ela estava apavorada e sua idéia inicial era demiti-lo em nome da boa imagem da instituição. Em determinado momento da festa (e eles ainda não tinham se encontrado), algumas pessoas foram para outro cômodo da casa e começaram a cantar e tocar violão. Minha conhecida foi atraida pela música e,  ao chegar lá, deparou-se com o sujeito fumando seu baseado com outros convidados.

Olhares cruzados e ambos quase se esconderam de vergonha na lata de lixo mais próxima ... ela por preferir não saber deste detalhe e, ele, por motivos óbvios, afinal a chefe o tinha em grande estima e confiança e esta, havia sido traída ... , imagino eu ...

Perguntei a ela como era o sujeito no trabalho e soube que era brilhante. Esforçado, inteligente, bem humorado, participativo, comprometido com seu trabalho e com as metas propostas.  Perguntei então: - você vai demitir este cara tão bom só porque ele fuma seu baseadinho em festinhas ? Me dê uma razão mais madura por favor. Ele fuma na empresa ? Já chegou ao trabalho alterado de alguma forma suspeita ? Comentou com alguém que fuma ?

A menina disse que não mas ensaiou um discurso bôbo, intelectual, moralista, ultrapassado e não conseguiu responder à minha pergunta. Disse que com o passar do tempo os neurônios ficam comprometidos e ele não faria mais o trabalho da mesma forma; disse também que ele estava contribuindo para a violência por sustentar traficantes e outras coisas. Perguntei se ela conhecia os segredos e intimidades de todos na empresa. Naturalmente ela disse não. Perguntei o que faria se descobrisse se seu  “grande chefe”  fosse um maconheiro em casa ou, que a secretária tão séria e eficiente, fizesse “sexo pela internet” ou, ainda, se a supervisora sua amiga religiosa e até meio rígida, traísse o marido. Respondeu que ficaria de queixo caído se tudo isto fosse verdade e, com certo senso de humor, que “o mundo estaria perdido”.

Disse-lhe então que quem sustenta o tráfico é a cocaína, embora a maconha e, sem defendê-la, não sou maconheiro, também contribua. Mas, o mais importante foi perceber suas imaturidade e rigidez, talvez decorrente da falta de vivências, talvez da formação tão rígida ou, ainda, da necessidade de ser aceita como alguém “perfeito”; condicionamento familiar clássico que é comumente reproduzido no trabalho, uma vez que os superiores são sempre de forma inconsciente, figuras familiares transferidas, mesmo que sejam mais novos que nós.

Acho que ela perdeu uma grande chance de mostrar seu lado pessoal e profissional. Poderia ter dito ao sujeito que estava surpresa, que não sabia que ele gostava de fumar maconha, mas que, por enquanto, isto não tinha influenciado em nada seu trabalho e que esperava que seu rendimento continuasse o mesmo, não esquecendo de reforçar suas qualidades.

Trabalho, dou aulas e converso com muita gente de RH. Nos “barzinhos” da vida todo mundo é muito liberal, tem idéias flexíveis e tudo de melhor que possamos pensar. Na verdade mesmo quem trabalha diretamente com comportamentos, especialmente se estiverem ligados à resultados, deixam de ser poetas, flexíveis e, em muitos casos, assumem racionalmente uma cisão na personalidade, e isto é muito sério.

“Ser” no trabalho, por mais diferente do que falam todos os preceitos que estudamos sobre RH, é sempre muito diferente do “Ser de verdade”, embora todos os profissionais da área estejam lutando por isto. Gosto de usar poucas referências teóricas pois todos fazem isto e mais uma vez confirmam a cisão entre "Ser o que se é” e,  “Ser para ...”,  do Heiddeger (filósofo existencialista alemão do século passado).

Infelizmente, para muitos profissionais de determinados segmentos, estamos inseridos numa época em que o mais importante são os resultados financeiros. O problema é: “que resultados são estes ?”

Para muitos médicos é o resultado imediato da cirurgia e as receitas de alimentação, mesmo ao custo de saberem, na maioria dos casos, que quem sofre de osteoporose, por exemplo, não pode comer açucar e recomendam que comam de tudo .... (o açucar “rouba” o cálcio do organismo)...  e os laboratórios e indústrias de adoçantes e açucares faturam mais e mais com isso.

Para muitos professores de ginástica a força muscular deve vir de proteínas animais, mesmo sabendo que os animais recomendados são alimentados com rações cancerígenas (
e os laboratórios e indústrias de frangos, por exemplo, sucos em caixinhas cheios de espessantes e outras armas, faturam mais e mais).  Para muitos advogados vale a “brecha” na lei para colocar um bandido em circulação de novo (afinal, mesmo sabendo das deficiências dos códigos atuais, só querem a vantagem da riqueza que propõem em sua frágil condição atual de desmerecimento, especialmente, por uma grande fatia de quem os estuda).  Para muitos engenheiros vale o cimento mais barato que acaba cedendo e matando muita gente.

Para todos os profissionais sem informação, seja pela idade ou circuntâncias, vale o "caminho comum divulgado pelos colegas e pela mídia, também muitas vezes, desinformada". Profisionais da comunicação começando, por exemplo, a serviço de grandes empresas, são ávidos de qualquer informação sensacionalista, com raras excessões. Para os experientes em qualquer área meu artigo não interessa pois é muito óbvio. Peço desculpas e ao mesmo tempo agradeço a atenção dispendida !

Para quem trabalha com RH, o que também é gravíssimo, uma vez que teoricamente escolheram a profissão pela afinidade com o “humano”, a falta de humanidade e a confusão do público com o privado geram decisões infantis e sem ligações com os resultados pretendidos.

Não é hora de revermos nossas certezas, condicionamentos, vaidades e apegos à normas ultrapassadas ? Mesmo que dependamos financeiramente delas podemos ser mais flexíveis em função de nosso próprio trabalho de contato com o “ser” de cada um.

Fica a questão.


*Ricardo Alexandre Mendonça é consultor em Recursos Humanos, mestre em Psicologia PUC/RJ e especialista em Educação a Distância (EAD). Consultor do IVAR - Instituto do Varejo-RJ e consultor por 6 anos do IBQN na área da gestão da qualidade total. Formação como avaliador do PQ/RIO 99. Escritor e palestrante. Realiza instrutoria e desenvolve projetos de treinamentos nas áreas gerencial e de gestão de negócios, tutor EAD do Sebrae Nacional e sócio diretor da Diferencial Educação & RH.