Um indivíduo torna dinâmico
o seu potencial
empreendedor através da representação que faz da
realidade e das relações que acredita poder estabelecer
com o mundo. Todos nascemos empreendedores, mas é preciso
libertar o empreendedor que existe dentro de nós, aprisionado
por obstáculos culturais.
Um empreendedor se conhece pela ação. Após sonhar
e deixar-se dominar pela emoção do seu sonho, o
empreendedor mergulha no mundo, no mundo como ele vê, em busca de
oportunidade para transformar o seu sonho em realidade. A primeira
ação do empreendedor diz respeito à
identificação de oportunidades. Ao identificar uma
oportunidade congruente com o seu ego, o empreendedor mostra a sua
cara. Ao transforma-la em realidade, o empreendedor se faz.
Identificar oportunidades é a primeira competência do
empreendedor. Ao contrário do que se pensa, a oportunidade
não cai nas cabeças das pessoas, como um presente dos
céus. Identificá-la é um trabalho que exige
sensibilidade, energia, pesquisa, testes, possível somente para
quem conhece profundamente o setor em que vai atuar.
A oportunidade é uma forma de olhar. Ela está dentro das
pessoas e não fora delas.
Por que, em nossa cultura, o desenvolvimento da capacidade de
identificar oportunidades não faz parte do aprendizado formal?
A criação de oportunidades é vista como uma tarefa
dos responsáveis pelas macro-políticas, principalmente as
econômicas, materializadas através da
criação de condições que levem ao aumento
da capacidade produtiva, gerando-se oportunidades de trabalho, emprego
e negócios. A dinâmica do modelo baseado no emprego
baseia-se em transformar oportunidades de negócios identificadas
e aproveitadas por poucos (empreendedores) em empregos para muitos. A
demanda principal é por competência técnica,
responsabilidade a cargo do sistema educacional. Neste paradigma
produtivo, habilidades lógicas e conhecimentos técnicos
são requisitos para os melhores empregos. Elites procuram as
universidades, o pessoal do chão de fábrica tenta se
qualificar através dos cursos profissionalizantes. O saber
técnico, além de instrumento de produção,
tem a função de gerar e preservar posições
sociais. No passado, por várias razões, os mundos da
produção e da educação no Brasil mantiveram
uma relação cliente-fornecedor baseada exclusivamente na
formação de técnicos. Não de tecnologia,
mesmo porque essa geralmente vinha de fora, muitas vezes com
restrições.
Na divisão de tarefas daquele mundo fortemente estruturado, o
conhecimento não era necessariamente comprometido com a sua
aplicação para geração de valor para a
sociedade. Segregados, colocados freqüentemente em campos opostos,
conhecimento e prática empresarial eram operados por atores de
difícil diálogo que se isolavam nos respectivos
âmbitos de sua atuação e hegemonia.
No passado, conhecimentos e negócios, academia e empresa eram
culturalmente mantidos à distância. Nesse mundo a
identificação de oportunidades de negócios
não precisava ser tema da educação.
Em conseqüência, um personagem com papel crucial foi mantido
fora do palco educacional. O seu script: transformar conhecimentos em
riqueza ou em valor para a sociedade. O seu know-how: identificar
oportunidades e transformá-las em empreendimento de sucesso. O
seu nome: empreendedor, o protagonista dos novos tempos. Este é
o perfil do trabalhador moderno.
A industrialização aproveitou a dicotomia entre
razão e emoção proposta em outras esferas e a
estendeu magistralmente ao chão de fábrica, encampando
ideologicamente a ruptura entre emoção e trabalho, como
se isto fosse possível. A relação
predominantemente técnica entre a produção e o ser
humano, definiu, no passado, a estratégia educacional de
geração de competências para a economia, que
funcionou bem enquanto o modelo teve fôlego. As universidades
preocupavam-se (e ainda, errando de século, persistem) em formar
competência técnica em condições de ser
absorvida pelo "mercado empregador", este sim, responsável pela
identificação de oportunidades.
Isto talvez explique os motivos pelos quais a capacidade de identificar
oportunidades não faça parte nossa educação
formal básica, nem nos processos educacionais informais, a cargo
da família e dos grupos sociais, respeitadas a
exceções estatisticamente registradas.
Explica também porque a habilidade empreendedora em uma
sociedade cuja preparação profissional é dirigida
para o emprego seja vista como dom de uma minoria, quando, de fato,
é uma competência que pode ser desenvolvida como outra
qualquer.
O que mudou? Na era da economia do conhecimento, somos obrigados a
entender que a emoção não se dissocia da vida e
por isto nada acontece à sua revelia, muito menos o trabalho.
Por que? Porque quando o homem é feito máquina, a
emoção é estorvo. Mas quando é chamado a
atuar enquanto ser humano, utilizando a sua criatividade, rebeldia e
inteligência, principais insumos produtivos da nossa era, o
coração volta a ser essencial.
*Fernando Dolabela é
consultor e educador na área de empreendedorismo, autor dos
livros O Segrêdo de Luísa e Pedagogia Empreendedora e de
vários programas educacionais no Brasil. Homepage:
www.dolabela.com.br