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IDENTIFICANDO UM EMPREENDEDOR  

Fernando Dolabela* 

Um indivíduo torna dinâmico o seu potencial empreendedor através da representação que faz da realidade e das relações que acredita poder estabelecer com o mundo. Todos nascemos empreendedores, mas é preciso libertar o empreendedor que existe dentro de nós, aprisionado por obstáculos culturais.

Um empreendedor se conhece pela ação. Após sonhar e deixar-se dominar pela emoção do seu sonho, o empreendedor mergulha no mundo, no mundo como ele vê, em busca de oportunidade para transformar o seu sonho em realidade. A primeira ação do empreendedor diz respeito à identificação de oportunidades. Ao identificar uma oportunidade congruente com o seu ego, o empreendedor mostra a sua cara. Ao transforma-la em realidade, o empreendedor se faz.

Identificar oportunidades é a primeira competência do empreendedor. Ao contrário do que se pensa, a oportunidade não cai nas cabeças das pessoas, como um presente dos céus. Identificá-la é um trabalho que exige sensibilidade, energia, pesquisa, testes, possível somente para quem conhece profundamente o setor em que vai atuar.

A oportunidade é uma forma de olhar. Ela está dentro das pessoas e não fora delas.

Por que, em nossa cultura, o desenvolvimento da capacidade de identificar oportunidades não faz parte do aprendizado formal?

A criação de oportunidades é vista como uma tarefa dos responsáveis pelas macro-políticas, principalmente as econômicas, materializadas através da criação de condições que levem ao aumento da capacidade produtiva, gerando-se oportunidades de trabalho, emprego e negócios. A dinâmica do modelo baseado no emprego baseia-se em transformar oportunidades de negócios identificadas e aproveitadas por poucos (empreendedores) em empregos para muitos. A demanda principal é por competência técnica, responsabilidade a cargo do sistema educacional. Neste paradigma produtivo, habilidades lógicas e conhecimentos técnicos são requisitos para os melhores empregos. Elites procuram as universidades, o pessoal do chão de fábrica tenta se qualificar através dos cursos profissionalizantes. O saber técnico, além de instrumento de produção, tem a função de gerar e preservar posições sociais. No passado, por várias razões, os mundos da produção e da educação no Brasil mantiveram uma relação cliente-fornecedor baseada exclusivamente na formação de técnicos. Não de tecnologia, mesmo porque essa geralmente vinha de fora, muitas vezes com restrições.

Na divisão de tarefas daquele mundo fortemente estruturado, o conhecimento não era necessariamente comprometido com a sua aplicação para geração de valor para a sociedade. Segregados, colocados freqüentemente em campos opostos, conhecimento e prática empresarial eram operados por atores de difícil diálogo que se isolavam nos respectivos âmbitos de sua atuação e hegemonia.

No passado, conhecimentos e negócios, academia e empresa eram culturalmente mantidos à distância. Nesse mundo a identificação de oportunidades de negócios não precisava ser tema da educação.

Em conseqüência, um personagem com papel crucial foi mantido fora do palco educacional. O seu script: transformar conhecimentos em riqueza ou em valor para a sociedade. O seu know-how: identificar oportunidades e transformá-las em empreendimento de sucesso. O seu nome: empreendedor, o protagonista dos novos tempos. Este é o perfil do trabalhador moderno.

A industrialização aproveitou a dicotomia entre razão e emoção proposta em outras esferas e a estendeu magistralmente ao chão de fábrica, encampando ideologicamente a ruptura entre emoção e trabalho, como se isto fosse possível. A relação predominantemente técnica entre a produção e o ser humano, definiu, no passado, a estratégia educacional de geração de competências para a economia, que funcionou bem enquanto o modelo teve fôlego. As universidades preocupavam-se (e ainda, errando de século, persistem) em formar competência técnica em condições de ser absorvida pelo "mercado empregador", este sim, responsável pela identificação de oportunidades.

Isto talvez explique os motivos pelos quais a capacidade de identificar oportunidades não faça parte nossa educação formal básica, nem nos processos educacionais informais, a cargo da família e dos grupos sociais, respeitadas a exceções estatisticamente registradas.

Explica também porque a habilidade empreendedora em uma sociedade cuja preparação profissional é dirigida para o emprego seja vista como dom de uma minoria, quando, de fato, é uma competência que pode ser desenvolvida como outra qualquer.

O que mudou? Na era da economia do conhecimento, somos obrigados a entender que a emoção não se dissocia da vida e por isto nada acontece à sua revelia, muito menos o trabalho. Por que? Porque quando o homem é feito máquina, a emoção é estorvo. Mas quando é chamado a atuar enquanto ser humano, utilizando a sua criatividade, rebeldia e inteligência, principais insumos produtivos da nossa era, o coração volta a ser essencial.


*Fernando Dolabela é consultor e educador na área de empreendedorismo, autor dos livros O Segrêdo de Luísa e Pedagogia Empreendedora e de vários programas educacionais no Brasil. Homepage: www.dolabela.com.br