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Denise Barros*

PRA MÃES QUE TRABALHAM FORA

Início de conversa

O reconhecimento de que a infância é a base para o desenvolvimento da auto-estima e das habilidades das pessoas trouxe muitas mudanças no relacionamento entre pais e filhos. Contudo, essa compreensão foi acompanhada por algumas distorções. Entre elas encontramos a idéia de que a felicidade do filho dependeria da atitude de seus pais e por isso estes não poderiam errar com os pequenos, pois, caso contrário, o trauma seria irreversível.

Mas não é assim que a felicidade de alguém é construída como também não é essa a responsabilidade dos genitores...

A criança se forma a partir de sua interação com as pessoas, principalmente mãe e pai. A cada momento, sem que percebam, esses adultos apresentam o mundo para o pequeno ser. Seus atos, palavras e humores funcionam como dicas para que o filho organize e aprenda sobre tudo que está à sua volta incluindo aí quem ele é.

O que nem sempre é lembrado é que o resultado desse processo é imprevisível, pois a criança não armazena passivamente as informações que recebe. Ela reage e interage com essas impressões. Assim não é possível garantir o resultado de um determinado tipo de atitude dos pais. Ou seja, uma ação dos pais raramente é traumatizante em si. Mas dependendo do valor e do sentido que essa ação ou a repetição dessa ação ganha é que vai ter o efeito de um trauma na criança.

Para ilustrar melhor, podemos imaginar a situação de uma mãe que precisa passar a semana toda trabalhando em outra cidade durante alguns meses.

Provavelmente esse afastamento marcará o filho. Mas isso não significa que necessariamente será um trauma. O trauma é algo da ordem do insuportável, incompreensível e vivido como uma dor muito intensa. No nosso exemplo, o filho pode desenvolver várias idéias, como: o trabalho é ruim (tira a mãe dele de perto);  toda vez que a mãe sai para o trabalho vai demorar muito para chegar; ou ainda que ele teria feito algo errado e por isso ela não está perto; pode perceber também que na ausência dela, ele faz diversas coisas que ela normalmente não deixa... Essas são possibilidades de marcas. E todas vão depender do contexto da situação e de como a criança interage com esses estímulos. (Vale lembrar que o contexto é a soma das ações e dos humores e sentimentos das pessoas envolvidas na cena. Além da mãe e do pai, dos outros adultos e crianças que interagem mais intensamente com dela.)

O maior dificuldade nessa situação não costuma ser o afastamento em si e sim como a mãe vivencia esse afastamento e como transmite isso para a criança. Muitas vezes a reação dela vai depender de como ela se relaciona com o próprio trabalho, o que ela pensa sobre ser mãe, como ela lida com as próprias frustrações, como vive sua própria autonomia... A forma que a mãe interage com seu filho muitas vezes expressa como ela age na própria vida com ela mesma. Ou seja, não basta tentar descobrir qual a melhor técnica para lidar com seu filho. É necessário cuidar de si mesma. Isso não é igual a egoísmo e, muitas vezes, é fundamental para uma boa educação da criança.

Voltando para o nosso exemplo, podemos pensar sobre um outro aspecto da educação. A viagem a trabalho é uma nova situação (gera mudanças) na qual a mãe e às vezes toda a família têm que se adaptar. É um problema ou um desafio a ser superado. Quando o filho compartilha da administração das perdas e dos ganhos das novas situações ele aprende a buscar soluções para os conflitos que vivencia. É um aprendizado adquirido através dos atos e palavras: a capacidade de superar os obstáculos e construir a própria autonomia apesar de algumas perdas.

Assim a responsabilidade dos pais não é garantir a felicidade ou evitar o sofrimento imediato dos filhos. Sua responsabilidade está em favorecer que eles construam competências e habilidades através das experiências de vida (boas e más) para também superarem suas próprias dificuldades. Isso é cuidar da formação da criança para que ela desenvolva sua autonomia.

Nesse contexto, o erro dos pais pode ser muito relativo pois eles próprios podem aprender com o erro e superar mais essa dificuldade. Não é só a nova atitude em si que é bem vinda mas a capacidade de  se reorganizar diante de uma necessidade.

Dessa forma é possível fazer o melhor pelo filho trabalhando fora. Vamos a luta?!


* Denise Barros é psicóloga doutoranda e trabalha com atendimento clínico a crianças, adolescentes e adultos e orientação familiar.   
Contatos: denise.e.barros@bol.com.br