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Você
chega para ministrar uma palestra e o microfone ainda está sendo
testado. Os fios das caixas de som são pequenos e te pedem, com
cara de
“estamos fazendo de tudo”, para esperar um pouquinho. Te indicam onde
fica o café, água, banheiros, etc ... A pessoa que te
receberia ainda
não chegou e nem liga avisando, assim como os
funcionários que estão no
local dizem que “ela está chegando, deve ser o trânsito”
...
Em outro momento
você chega ao local com antecedência, como convém ao
profissional comprometido, e, nem o próprio local do seu
trabalho foi
aberto ainda. Você aguarda pacientemente por algum representante
da
empresa e liga para seu celular para avisar que chegou, mas,
lamentavelmente, o celular dele está desligado ou fora de
área. Hora de
pensar em amenidades e, principalmente, na responsabilidade da empresa
e seu comprometimento com a equipe e com o profissional contratado,
você.
O mesmo ocorre num
treinamento.
O material
solicitado veio incompleto, o vídeo e a TV ainda nem foram
conectados, muito menos testados ... você fica com cara de “acho
que já
vi este filme antes”, mas como é educado e paciente, aguarda
serem
ligados e testados. Se não funcionarem tudo bem, afinal o
treinamento é
seu e não deles, não ?
Hora marcada para
começar. Você todo preparado e às vezes até
um pouco
nervoso e, das 30 pessoas que fariam o treinamento, só oito
chegaram
com quinze minutos de atraso dizendo que os outros estão
chegando, pois
foram acabar um pequeno relatório ou responder à uma
ligação
importante, dentre outras coisas. Mais uma vez você educadamente
sorri
e conversa amenidades para passar o tempo. Depois de trinta ou quarenta
minutos e, aos poucos, as pessoas começam a chegar. Cumprimentam
você
discretamente e começam a papear assuntos pessoais enquanto o
organizador do evento, que te recebeu antes e teve que dar uma
“saidinha”, tenta apresentá-lo para que comece seu trabalho.
Alguns
minutos depois, já de posse da palavra, todos se distraem com a
chegada
de outros participantes e com o calor insuportável. Todos,
inclusive
você, descobrem que o ar condicionado não está
ligado; mais uma
interrupção para liga-lo. Hoje você deu sorte,
até que estava
funcionando.
Depois de acordar
as regras e horários de intervalos e almoço com
todos, finalmente, seu treinamento começa ! Ao voltar do
intervalo,
você percebe que metade dos participantes sumiu; nada de grave,
estão
voltando e só foram fumar um cigarro e falar ao telefone.
Particularmente não me incomodo com os fumantes, afinal sou um
deles,
mas nenhum cigarro do mundo leva vinte minutos para ser fumado ... no
almoço a situação piora pois alguns aproveitam
para ir ao banco, outros
para resolverem pendências pessoais etc, etc ... ao fim do dia o
treinamento pôde ter sido prejudicado em sua eficiência
pela bagunça e
falta de organização.
Numa
dimensão maior temos as empresas que contratam consultores e
instrurores para fazer um grande treinamento em suas lojas, filiais,
escritórios, etc ... pagam-lhes bons hotéis, táxis
a qualquer hora do
dia ou da noite, refeições em bons restaurantes,
passagens aéreas,
telefonemas e, naturalmente os honorários pelo trabalho. Tudo
funciona
bem: todos chegam na hora, equipamentos funcionam, horários de
intervalo e almoço são cumpridos, etc.
O que falta
então ?
Falta o
acompanhamento das melhorias que muitas vezes não é
feito,
falta a própria folha de avaliação de quem
ministra o treinamento (como
os gestores vão saber se foi bom ou ruim ?), falta explicar aos
participantes a finalidade e que melhorias se pretendem implantar com o
treinamento, falta liderança envolvida com os resultados e
cobrança dos
mesmos, falta tanta coisa ... participei de um treinamento assim em
2002 numa grande empresa com sede no Sul do país e tenho colegas
que
também têm esta experiência. Também tenho
este tipo de experiência no
Rio, em São Paulo, Brasília e Bahia.
Por que tudo isto
acontece e o que fazer ? Parece que estão jogando dinheiro fora
...
As falhas menores
como equipamentos desligados, portas trancadas e
atrasos, embora com desconforto para todos, participantes e
instrutores, podem ser contornadas com um bom papo com os
responsáveis
e com um acordo geral e explícito com a turma. Podemos
até firmar este
acordo numa cartolina assinada por todos e colocada na parede da sala.
De qualquer forma mesmo estas pequenas “falhas” denotam uma falta de
organização e visão da importância do
trabalho que será realizado. Fica
evidente que não há um canal de comunicação
satisfatório entre gestores
e executores dos projetos e nem um acompanhamento satisfatório
dos
processos. E olha que falam tanto em gestão da qualidade ....
existe
gestão da qualidade sem gestão presente e medidora dos
processos ??
Na dimensão
maior dos grandes e longos treinamentos, a necessidade de
jogar dinheiro fora é muito grande, quase visceral, pelas
empresas.
Algo parecido como na época do “boom” da re-engenharia e da GQT,
quando
todos queriam implantar sem nem saber direito o que era, mas, como eram
empresas de vanguarda, tinham que mostrar modernidade em modelos de
gestão.
Felizmente temos
muitas grandes e pequenas empresas boas e conscientes
de seu papel, seu capital financeiro e suas responsabilidades sociais.
Treinamento
é a parte 01 da educação empresarial, da
criação da cultura
e identidades da empresa. A parte 02 é a própria cultura
em
funcionamento, decorrente da reprodução
sistemática e flexível das
ferramentas e posturas recebidas no treinamento e, que devem ser
constantemente avaliadas, em relação às metas
estabelecidas
anteriormente. A grande questão é que sem
avaliação e cobrança de
resultados, todo o treinamento se perde em pouco tempo e é isso
que
vemos constantemente por aí. É de se esperar que isto
aconteça em
empresas com grande rotatividade de funcionários, uma vez que o
treinamento dos novos ocupa mais tempo que a possibilidade da
implantação de qualquer cultura organizacional que tenha
o aspecto
humano como diferencial.
As micro e
pequenas empresas por sua vez valorizam cada centavo
investido em treinamentos e cobram, sem piedade, resultados de todos os
que participaram dos processos. Muitas continuam com esta
tendência
mesmo depois de crescerem, entretanto, outras, perdem a dimensão
e
controle dos processos, implantam setores de RH desconectados da
realidade de seus negócios, contratam gestores de RH que
não entendem
nada do negócio da empresa como se RH fosse um setor estanque e
cuja
função é promover “palestras motivacionais”
desconectadas da verdadeira
falta de motivação dos funcionários e tantas
outras bizarrices que
vemos por aí.
Há muitos
anos passei por algumas seleções de emprego e fui
aprovado
numa delas para analista de RH de uma multinacional. Teria todos os
benefícios, etc etc ... eu sabia o que a empresa fazia mas
em nenhum
momento os candidatos foram informados das estratégias de
negócio da
empresa, suas metas, o que seria exigido de cada um etc. Só eram
informados das atividades de treinamentos que teriam que fazer sem
nenhuma ponte, nenhuma ligação com os objetivos de
marketing e fluxo de
caixa da empresa, um comportamento totalmente esquizóide para
uma
empresa daquele porte e peso no mercado mundial ! No dia de assinar o
contrato pensei: se entrar aqui nunca mais saio pois terei uma
série de
confortos que não conseguirei me livrar nunca na vida e
não terei mais
tempo para escrever, pesquisar, estudar e dar meus treinamentos “por
fora”. Tinha uns 30 anos mais ou menos e perguntei aos meus pais o que
fazer. Eles me disseram para fazer o que meu coração
mandasse. No mesmo
dia peguei o telefone e liguei avisando que por motivos pessoais
não
aceitaria o cargo. Claro que muita gente me taxou de maluco para cima,
“imagina, recusar um emprego destes”, “ele acha que vai cair dinheiro
do céu” etc etc ... passei um bom tempo com dificuldades
financeiras em
função desta escolha mas hoje sou feliz com o que
faço e não me
arrependo nada. Depois tive contato com dois analistas de RH que foram
contratados e quando os sondei como era o trabalho me disseram que
só
conheciam a parte que lhes cabia sem nenhuma conexão com o resto
da
empresa e, ainda assim, tinham que viajar constantemente para dar
treinamentos motivacionais ... eu realmente nunca descobri qual a
técnica que eles usavam para isso. Não entendo como
motivar alguém sem
uma bela dose de transparência, ouvidos apurados para ouvir
reclamações, inclusive salariais e, principalmente, sem a
empresa
oferecer de verdade tudo aquilo que ela diz de bonito aos
funcionários
através dos “treinamentos motivacionais”.
Resumo da
história:
- Dinheiro
é uma dádiva divina e deve ser muito bem utilizada.
- Recursos das
empresas devem ser planejados para utilizar com acompanhamento e
medição de resultados.
- Muitas empresas,
especialmente as grandes, são obrigadas a gastar
dinheiro dos vários setores com prazos estabelecidos para
poderem
receber mais no ano seguinte e, por falta de planejamento, gastam de
qualquer maneira, ainda mais no fim do ano.
-
Desconexão entre discuso e prática não motiva
ninguém.
*Ricardo
Alexandre Mendonça é consultor em Recursos Humanos,
mestre em
Psicologia PUC/RJ e
especialista em Educação a Distância (EAD).
Consultor do IVAR - Instituto do Varejo-RJ e consultor por 6 anos do
IBQN na área da gestão da qualidade total.
Formação como avaliador do PQ/RIO 99. Escritor e
palestrante.
Realiza instrutoria e desenvolve projetos de treinamentos nas
áreas
gerencial e de gestão de negócios, tutor EAD do Sebrae
Nacional e
sócio diretor da Diferencial Educação & RH
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