![]() A VIDA COM INSTRUÇÕES “A botinha representa a nossa caminhada na
vida. Subi e desci. Andei depressa e devagar. Cansei e descansei. Entristeci e me alegrei. E, assim, sempre caminhei. Hoje estou gasta e cheia de marcas, mas com a certeza de que valeu a pena.” (Ditinho Joana)
Agora
é pra valer. Fevereiro traz consigo a volta à rotina para
a maioria das pessoas. É o fim das férias para muitos
trabalhadores e também para os estudantes. Os hotéis
turísticos ingressam na chamada “baixa temporada”, com reduzidas
taxas de ocupação e preços mais módicos.
Empresas retomam a produção paralisada por força
da crise do último trimestre de 2008. O trânsito
caótico ganha novamente as ruas das grandes cidades. Até
mesmo os parlamentares retornam de seu recesso. É hora de
desengavetar os planos traçados na virada do ano e partir rumo
à sua implementação. Ler
o jornal, acessar a internet, ouvir o rádio – atualizar-se. Fazer telefonemas,
responder e-mails, participar de reuniões – comunicar-se. Tomar banho, fazer as
refeições, praticar esportes – cuidar-se. A vida é uma sucessão de ações
cotidianas (que se repetem diariamente), corriqueiras (desenvolvidas cada vez
mais em alta velocidade) e rotineiras (do francês routine, o caminho
muito frequentado). Há
um costume equivocado, em meu entender, compartilhado por muitos. É o hábito de
separar prazer de obrigação, trajeto de destino, vida pessoal de profissional.
Assim, vejo pessoas declararem que sonham passar os últimos dias de suas vidas
em uma casa no campo, longe da agitação urbana. E outros que afirmam trabalhar
com afinco durante meses apenas para garantir a posse de alguns bens ou uma
viagem de lazer no próximo interlúdio. Ditinho
Joana é um artesão nascido, criado e residente na pequena São Bento do Sapucaí,
em São Paulo, próxima à divisa com Minas Gerais. Em seus 35 anos de carreira tem
talhado em madeira de lei parte de sua história e da vida rural local, lançando
mão apenas de uma machadinha, um canivete e um formão. As obras são esculpidas
em bloco único, dispensando o uso de colagens ou encaixes. E seu trabalho faz-me
lembrar da declaração de Michelangelo, ao cinzelar em pedra, de que “apenas tirava as sobras, pois a estátua já estava lá".
O
ícone do trabalho de Ditinho é uma bota. Simples, amarrotada, calejada. A bota
que capinou o chão, que escalou montanhas, que pisou o barro. A bota que o
conduziu de lavrador a artista, que edificou sua casa e construiu sua família.
Atendendo
hoje em seu próprio ateliê, seu sorriso gracioso denuncia que a trajetória –
cotidiana, corriqueira e rotineira – valeu a pena. A
vida que a gente vive parece herdada com instruções, uma bula escrita pelos
ascendentes e pela sociedade ensinando-nos o “como usar”. O que devemos, podemos
ou não dizer e fazer. O que é ético, antiético e aético. O que é moral, imoral e
amoral. O que é certo e o que é errado. Tarefas por realizar, planos por
concretizar, horários por cumprir. Dias que sucedem, com noites intercaladas,
algumas maldormidas, outras serenas pela leveza da boa
consciência. Não
dá para ignorar todas as instruções. Mas é possível reescrever algumas. E
encontrar prazer na obrigação, contemplar o trajeto até o destino, conciliar
vida pessoal e profissional. Descansar em uma casa no campo em um final de
semana e não apenas ao final de uma vida. A
lição de Ditinho é para ser aprendida. Espero que minhas botas também fiquem
gastas e repletas de marcas. Continuo caminhando...
Tom Coelho*
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